
Ele ficava ali. Parado, olhando o rio. Em cima de um cocho onde ficava sua comida. Sua esposa não aparecia naqueles últimos dias, e eu não entendia por quê. Juro. Ele subia em cima de seu cocho que deveria medir seus 30cm de altura e ficava estático à observar o rio...
O tempo passou. Sua esposa saíra da toca para ver como iam as coisas. Sim, eram três. A alegria, imagino eu, ser imensa. Meus lábios se movem suavemente, sem sadismo nem sarcasmo, ao lembrar daquela família. Ela saiu, com seus três filhotes. Havia um mesclado, igual a mãe. Outro cheio de bolinhas, muito alternativo, eu diria. O terceiro era marrom, como pai. Que por sua vez, desceu de sua fortaleza para contemplar sua família.
Os dias iam passando, e a cada dia, em cada intervalo de aula, eu deixava minha “selva de pedras” para observar o pequeno rastro que a natureza ainda deixa perto de sua maior criação, o homem. O rio sujo, com umas vegetação pobre ao lado. Vê-se pneus, barro, esgoto... e cabritos. Uma família composta por cinco membros selvagens, pacatos e alegres. Sabe, eu os observava, como disse, em todos os meus vagos segundos. Dóceis. Pulavam os filhotes... meus lábios abrem um largo sorriso agora. Eles gostavam de pular. Sim, pular. Quase caiam dentro do rio... a mãe sempre os amamentavam e tomava conta deles, olhando, sem ambição, para as futuras ceias de natal.
O marrom, idem pai, gostava do mesmo. Na verdade, os dois se davam muito bem. Dormiam ao sol, juntos. Estavam todo o tempo se identificando com suas cores semelhantes. Certo dia, me deparei com a seguinte cena: um cocho. No mesmo lugar. Um cabrito em cima, olhando o rio. Sim. Era seu filho. Havia aprendido a acreditar que a vida passa naquelas águas imundas. Acreditar que junto com seus segundos, alguém estava olhando por eles. O pai estava dormindo, talvez nem percebesse que seu filhote estava tomando seu lugar. Estava no seu observatório, talvez com os mesmos pensamentos.
E o tempo não parava de passar. Assim como minha musica toca pela quarta vez, eles cresceram... eu acompanhando. Todos os dias pela janela, sorrindo e torcendo para que eles me vissem. Eu acenava, assoviava. Era em vão, mas eu tentava. Quando um dia, cheguei na sala de aula, coloquei meus matérias na carteira e me dirigi para a janela. Não os vi. Fiquei preocupada. Ignorei, talvez eles estivessem dentro da “casa” que os donos colocam pra eles.
No dia seguinte, repeti o de sempre a respeito dos materiais. Olhei para a janela, e... novamente não os vi. Um menino alto que estudava comigo apareceu, curto e grosso: “Ontem vi o pessoal da mecânica matar os cabritos”.
A principio não acreditei. Porem, nunca mais os vi. Soube depois que os pais foram mortos, e os filhotes vendidos para o mesmo destino. Foi lastimável. Eu passava meu tempo observando a natureza... eu realmente amava aquela família de cabritos.
A natureza tenta ser perfeita. Mas sua maior criação sabe como chicoteá-la. O homem se encontra em cima do cocho. Observando o rio... sujo, por ele. A água passa... a vida passa. Você morre, e seus filhos também. Mas você não pensa. Animal não pensa. Mas eu, vi tudo isso. Sim, eu vi...
Tuesday’s gone with the wind.